XXIX. Solidariedade

Num acto de fé, benze-se. Faz o sinal da cruz sobre testa húmida, tocando com as pontas dos dedos no cabelo que lhe cai, negro e sujo de pó e suor. Desce até ao peito, onde guarda os seus segredos, as dores e os desamores. Ombro esquerdo e depois, num acto pausado, o direito.
Ora por amor, ora por paz e talvez por alguém novo. Nunca se curvará perante ninguém, nunca se ajoelhará aos pés de outro senão dele mesmo.
Segue caminho, sem saber para onde ir, guiado apenas pelos seus pés, sem pensamentos, focado nas pessoas com quem se cruza.  
Ao descer a rua, vê dois miúdos a cobiçar umas camisolas dos Led Zeppelin junto à montra de uma loja. Dirige-se a eles e observa a placa com o preço. Os miúdos observam-no, sem entenderem como é possível que alguém com ar de homem das cavernas possa conhecer as bandas da moda.
Olha-os de relance, esboça um sorriso e abre a carteira. Dá-lhes três escudos. Tudo o que lhe sobra do ordenado de fevereiro, do trabalho no café. 
, para onde vai, não precisará de dinheiro algum. , não se fazem contas aos bolsos.
Continua a caminhar, rumo ao tempo e, perplexos, os miúdos correm para dentro da loja, gritando obrigados!.
Agora sorri, mais leve. Repara que se dirige ao rio. Está nevoeiro e os cafés estão às moscas. Sem qualquer pensamento impeditivo, descalça-se dos Nikes velhos e empoeirados, tira a camisola manchada pelo tempo e pela falta de cuidados e mergulha. 
Assim que sente a água gelada em contacto com a pele dos braços, da cabeça, das costas e da barriga, sabe que está em paz. Não sabe para onde vai, mas sabe que se encontrou. 

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Quando lia contos de fadas, eu imaginava que aquelas coisas nunca aconteciam, e agora cá estou no meio de uma! Deveria haver um livro escrito sobre mim, ah isso deveria! E quando for grande, vou escrever um...
L.C.