Houve uma noite em que escrevi sobre um homem louco


Havia um homem louco.
Encostado à parede, à única parede das ruínas a que chamava casa, passava os séculos aos gritos, múrmuros, trejeitos de dor, esgares de tormentas. Não morava ninguém com ele. Não tinha vizinhos. No fundo, era um sem-abrigo.
Esmurrava a parede! Baques secos na atmosfera árida que o envolvia.
Puxava os cabelos – sentia o ardor do sangue sufocado debaixo da pele; o vácuo dos dias que não lhe latejava no peito; o formigueiro de não-beijos na língua; a cegueira provocada pelo ópio ermo.
Compulsivamente, baloiçava o seu corpo cadavérico, numa dança compassada. Dois por quatro. Binário simples. Pesaroso…
E esse homem sem nome, vivia tão dentro de mim, na minha imensidão… que se perdeu!
Vil consciência a minha.

3 comentários:

Rui Neves disse...

triste, melancólico, frio e duro mas belo.

Jéssica Cardoso disse...

o mundo é do homem louco. e é teu.

Catarina F ;) disse...

Nossa, escreves tão bem *o* Não pares, pois adoro o que escreves....é sentido e escrito por palavras sublimes**
Ps: Gostava muito de seguir o teu blog mas não estou a conseguir xs

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Quando lia contos de fadas, eu imaginava que aquelas coisas nunca aconteciam, e agora cá estou no meio de uma! Deveria haver um livro escrito sobre mim, ah isso deveria! E quando for grande, vou escrever um...
L.C.