(Olha: é imperativo que leias este texto ao som desta música!)
Era para
ser Mafalda, mas nasceu Alice de vários corações e muitas feições. Começou a
caminhar cedo demais e aprendeu a falar sem que lhe pedissem.
Escrever,
foi outra conversa. Começou com um A muito torto, mas lá lhe foi dando o jeito e, como quem não
quer a coisa, na primavera seguinte, já andava a contar histórias inventadas por ela. Fazia castelos
com livros do Winnie the Pooh e muralhas com histórias sobre bruxas e magos, princesas, maçãs e sapos. E chorava porque queria ler mais do que o que as imagens permitiam à sua imaginação e não conseguia. A Mãe sempre lhe dissera que ela deveria ser actriz – chorava quando queria.
Usava
sempre blusas de bolsinhos bordados, saias laranja-abóbora, soquetes com folho rendado e as botas ortopédicas azuis-marinho; um laço nos caracóis e
a pulseirinha de oiro no pulso gorducho. A pulseira que a Avó lhe tinha dado.
Passava horas a brincar com folhas de hortelã-pimenta e bolas de sabão. Tinha uma
teimosia muito natural, uma pacatez quimérica muito floral e um jeito para o
desenho muito próprio.
Era feita de muito.
...
Hoje, há
uma casa em ruinas, de paredes cor-de-rosa. A casa da sua infância. E, pelo
meio dos escombros, está a tábua da mesa da cozinha, toda rabiscada de lápis-de-cera
amarelo, que era a cor que pegava melhor na madeira por envernizar.