IV. Rezar

Recostei o corpo à pedra gelada, salgada pelo mar. Fundi-me com as algas e fechei os olhos. Senti-me gelar, salgar; o meu mundo era um mar de ideias e a minha mente ribombava sobre as minhas pálpebras. As minhas mãos, agora exangues, juntavam-se, formando uma posição de prece. 
Procurei em mim a resposta, a calma ao mar bravo que rugia e doidamente sibilava dentro dos meus ouvidos. 
Eu não era pele, não era carne, nem ossos. Não havia sangue em mim. Toda a minha vida era feita de sal e erros alheios. E eu beijei aquele abismo em que me embalava.
Só rezava, por rezar. Sem acreditar. Ria, quando o fazia. Era inútil. É inútil... É inevitável... É fatal.
– Nada a fazer.
– Nada a fazer.



Acho que o ventre de onde nasci, nunca me quis. Desconfio, até, que o sangue que me corre nas veias foi-me dado sob uma uma imensa dívida. E no caminho que tenho percorrido, desde que larguei o berço, tenho vindo a pagar em lágrimas todas as gotas de sangue que puramente precisei. 
Foi-me imposto que nascesse e agora dói a quem me criou que eu tivesse nascido.
O mundo é irónico, a família é ridícula e eu estou cansada dos laços rompidos que me prendem a esta casa, as estas paredes, a esta pele.
A minha maior dor está-me no sangue e eu nunca poderei mudar isso.

III. Romance

Romance é um livro que eu nunca abriria. Por ter medo; por ser uma fera desconfiada; por rugir à novidade.
Até que abriram um livro muito meu: Eu. Eu própria. Com todas as minhas páginas feridas, gastas, borratadas por lágrimas e manhãs de chá. Eu própria, com os meus cantos dobrados e com as frases que sublinhei na memória. 
Depois decidi que o romance não era um livro tão mau assim.
Desde então, que escrevo o nosso. 

II. Simbólico

Olhos lunares beijavam a força daquelas águas como se olhassem pela rebentação. Sopravam os beijos e acariciavam o sal, dando ao mar o azul esverdeado daquela noite.
Não!
Naquela noite, a água era feita de prata, como se todos os peixes nadassem nela, à sua superfície. Brilhava, rugia, sibilava. Por fim, sorria.
O mar sorriu à lua.
O mar sorria.