Senti um sussurro na pele, como um beijo de erva molhada sob as pontas dos dedos. Tremi. Deixei-me embalar por aquele aperto. Sufoquei-me e senti vontade, de novo, de cravar no corpo a dor que senti na alma. Quis respirar fundo mas senti-me, toda eu, feita de fumo, capaz de desaparecer com um suspiro de andorinha. Cerrei os punhos e, sem que me apercebesse disso, voltei novamente à paz. A dor não sossegara. Ainda estava aqui. Ainda está. Porque o amor não morre. E é por isso que senti paz.
Conheço a fera dentro de mim. Sei quando dorme e sei que, naquele momento, as portas da arena estavam abertas e que eu morreria assim que me visse a um espelho. E já chorava e já me via nas lágrimas que lhe caíam sobre o peito. Mas foi por ele que senti paz.
Pelo calor que, de repente, senti aflorar nas minhas faces, nas minhas mãos. Pela ânsia de sangue que deixei de sentir.

Sei que encontrei a saída de mim mesma. 

ave amore: II

Sento-me à tua frente. Repouso o meu olhar no teu – agora alheio – e levito. No meu sangue voam andorinhas. Chilreiam e dançam nesta alegria primaveril. Percorrem-me a pele áspera, fazendo-me girar sobre toda a tua aura. Oiço-te respirar e rezo para que me oiças viver por ti. Consegues? Não. Não repares em mim. Não me vês. Não me olhas sequer. Mas eu sei-te, sabendo que… oh! Desapareceste!
Terei de acordar agora? Preciso de te ver. Vou abrir os olhos.
Não estás aqui, definitivamente. Não cheira a limão, nem a mel – o teu cheiro. Que eu sempre soube que trarias no corpo; mesmo quando eu velava todo o meu ser, naquelas noites em que derramava suor, lágrimas… sangue. Mesmo nesses luares, eu já te sabia, sabendo que chegarias. 

Tricoto o tempo

Tricoto o tempo;
Frágeis paus de cerejas servem de fio.
Para mim,
O tempo corre,
O fio foge,
Um rio sem fim.

Alice