ave amore: II

Sento-me à tua frente. Repouso o meu olhar no teu – agora alheio – e levito. No meu sangue voam andorinhas. Chilreiam e dançam nesta alegria primaveril. Percorrem-me a pele áspera, fazendo-me girar sobre toda a tua aura. Oiço-te respirar e rezo para que me oiças viver por ti. Consegues? Não. Não repares em mim. Não me vês. Não me olhas sequer. Mas eu sei-te, sabendo que… oh! Desapareceste!
Terei de acordar agora? Preciso de te ver. Vou abrir os olhos.
Não estás aqui, definitivamente. Não cheira a limão, nem a mel – o teu cheiro. Que eu sempre soube que trarias no corpo; mesmo quando eu velava todo o meu ser, naquelas noites em que derramava suor, lágrimas… sangue. Mesmo nesses luares, eu já te sabia, sabendo que chegarias. 

Tricoto o tempo

Tricoto o tempo;
Frágeis paus de cerejas servem de fio.
Para mim,
O tempo corre,
O fio foge,
Um rio sem fim.

Alice
Na pele que chove,
A escura noite só,
Espelha-me só.

Alice

«Sou uma emoção estrangeira»

Há uma música do Povo
Nem sei dizer se é um Fado
Que ouvindo-a há um ritmo novo
No ser que tenho guardado…
Ouvindo-a sou quem seria
Se desejar fosse ser…
É uma simples melodia
Das que se aprendem a viver…
Mas é tão consoladora
A vaga e triste canção…
Que a minha alma já não chora
Nem eu tenho coração…
Sou uma emoção estrangeira,
Um erro de sonho ido…
Canto de qualquer maneira
E acabo com um sentido!

Fernando Pessoa

ave amore: I

É um mistério, este, meio triste, meio alegre, o de gostar-te. O de olhar-te, sol d'alva, nas manhãs em que o orvalho me beija os ombros leves e me cai sobre os olhos – plumas – nas molezas de quem amou a lua por dentro. De lábios dormentes e pálpebras desejosas de florirem.
É um segredo, este, meio meu, todo nosso, o de sorrir-te, inocentemente, na nudez de quem solta os dias, e agarra os quereres, lascivamente, de unhas cravadas na pele...
A pele – esse véu fervente de tudo quanto um Homem guarda dentro de si. De tudo e… e de nós. De espaços intemporais e lábios vorticosos, entre suspiros sedentes de mares mais revoltos e de céus mais altos.
É assim que vives dentro de mim; é desta forma que te sonho; te vivo como se vive, sem se dar por isso.

Tua,

Desenhando um eixo de luz, flutuavam sobre bolhas de pensamentos. Fundidos entre sonhos, e por entre ruas que faziam íntimas  –  como se faz a uma casa  –, vivam da única forma que sabiam: contavam mentiras e brindavam aos sorrisos que faziam seus, tão íntimos  – como se faz a um quarto.
Surripiavam flores dos canteiros anónimos e guardavam-nas num espectro eterno; guardavam-nas em caixinhas coloridas, cheias de memórias  –  grãos de água e gotas de areia
Tocavam no ar e nas nuvens... e na relva e na casca áspera das árvores centenárias e selavam o mundo num olhar rápido e palpável, urgente de toques e anseios; o seu mundo, que faziam muito seu  – como se faz a uma cama.

無限のアカウント


Cobria-lhe o cabelo uma fina camada de gotículas de chuva, semelhantes a rubis – brilhavam, dando-lhe um ar irreal.
Corria apressadamente – tão apressadamente quanto os pezinhos mordazes lhe permitiam –, na vaga tentativa de fugir da chuva, em direcção à estação, onde estava previsto o comboio chegar, por volta das cinco da tarde.
Estava atrasada – já passavam dez minutos da hora combinada
Aquela tarde de outono – de céu emoldurado por dois arco-íris –, mais solarenga do que o costume (e, ainda assim, abençoada pela chuva), dourara-se com o passar das horas do relógio da torre da Sé. E ela esquecera-se completamente de que, secretamente, teria de esperar a chegada do estrangeiro à estação. Por isso correu, mesmo estando ciente de que não chegaria a tempo.
E, de facto, não chegou – o comboio dera entrada na linha e partira entretanto.
Por isso sentou-se – cansada –, fazendo sua companhia o único cigarro que lhe sobrava no bolso.
Ele sou eu, em pessoa. Outra. Mas sou eu.

ベース

As melodias ofegantes que íamos tomando ao chá escorregavam-nos pelos pensamentos, pelos lábios e, de gosto acerejado: elevavam-nos às figuras de deuses omniscientes. Davam a ideia de sermos esféricos, simples, e de ainda vivermos dentro de um sentimento quente e intrauterino. Um sentimento de leveza e paz: tão doce quanto o chá que nos aquecia as almas.
Uma sensação de catarse percorria assim as pontas dos nossos dedos, e as palavras que escapavam por eles – sob a forma de gestos florais, muito contidos e infantis.
A chuva (se Deus a dava) chicoteava os vidros das janelas, de onde escorriam os vapores do chá, e nós lá estávamos: naquela atmosfera tão natural e açucarada.
Conversávamos, sonolentamente, sobre o inverno e sobre meias: diga-se que, no que toca a meias, não foi uma conversa tão solene assim. E íamos bebericando da música e das chávenas de chá, à medida que o tempo passava. E, rapidamente, nos apercebemos que já não falávamos de meias, mas de passos.
E era a consciência que nos assolava; a consciência que nos pesava na cabeça e nos peitos cheios de ar e de esperança; consciência da inconsciência da passagem do tempo, sobretudo. E o quanto tudo isso era absurdo.
Então, resfolgaste, encolheste os ombros e disseste, sorrindo, com muita simplicidade: nunca seremos suficientes para o que nos rodeia. Pousaste a chávena, levantaste-te do sofá de couro verde e dirigiste-te até à janela.
Estavas certo disso: como era habitual, conseguias condensar os maiores turbilhões numa frase e num sorriso, fazendo-os eclipsarem-se, numa ilusão.

Varanda


Eu estou bem. Quase tão bem. Vê como é bom voltar a dizer.

Ao espelho, retoco as feridas, como se fossem simples manchas de tinta.

My, my true love

Alice, by Coteau Twins

私と私


Soltei o olhar da razão que me fazia ver o mundo (a mesma razão que me consumia nas noites de deambulação pela cidade). 
Soltei o cabelo (que trazia preso, no topo da cabeça) e sacudi-o, criando, em torno de mim, uma aura incandescente, acentuada pela luz do lampião.  
Outrora, soltara-te do peito  como quem abre mão de um pássaro e lhe dá o mundo  para te ver, depois, fugir por entre os fumos da cidade, naquele teu vestidinho preto ameninado. 
Foste sempre pouco, sempre incompleta e insaciável  dizias precisar de pão para a alma  e, sempre inconsciente de que não medias mais do que uns míseros cento e sessenta e quatro centímetros, afirmavas ter sonhos presos por fios de cem metros, em direcção ao Sol (como se cem metros fosse muito).  Mas os teus sonhos não eram balões (não te puxavam alto, não te faziam ver o panorama horizontal da Terra); não te esquentavam o sangue e agrilhoavam-te à terra. 
Acho que, no final de todas aquelas somas e subtracções que eram os nossos desatinos, admiravas-me, mesmo sendo eu uma âncora; era eu quem te agrilhoava, eu, o teu maior sonho.  
E, cometendo novamente o erro de cair na impossibilidade lógica de te fazer ficar, prendi o olhar no céu, ciente daquilo que me consumia o espírito, o fôlego e as solas das botas (agora exaustas), e deixei-me ficar ali, suspensa em ideias desmesuradas, de sabor amargo a tabaco indiano.  

Hoje aprendi que...

Toda a arte nasce da fusão, essa sim mágica, entre técnica perfeita e alma profunda.

entre conversas com o P. Chagas Freitas...

七文章、七点

Um dia, gostava de inventar uma teoria; uma daquelas teorias poeticamente ridículas. Tão ridícula quanto as já lidas por aí; mas sem que perdesse o seu “Q” de arte, e passasse a ser uma composição de meia-dúzia de notas soltas. Mas, mesmo assim, não seria mau, nem que fosse por uma vez, poder quebrar a armação de clave das ideias modernas; conjugar sustenidos e bemóis, onde tudo se quer consonante.
Compor uma teoria dessas, seja qual for o momento em que é feito, não é fácil; aliás, nunca é, para mim, rápida a decisão a tomar sobre o que escrever.
Acho que, se pudesse, escreveria algo sobre uma rapariga-elefante; algo que pudesse inventar com as cinco pautas da minha própria memória, que, não sendo de elefante, é a de uma rapariga que perdeu a memória da última vez que chegou à prateleira onde se guardam, em latas de biscoitos sortidos, as decisões.
Talvez eu própria seja a teoria de que preciso, por ser um misto de indecisões e de memórias feitas de tinta-da-china; uma teoria poeticamente absurda e descabida.
Da próxima vez que chegar à lata dos biscoitos sortidos, guardo lá esta ideia; talvez nunca mais lhe chegue, ora pois, e toda esta indecisão acabe por se perder nas brechas da memória que não se quis de marfim.