Shine On You Crazy Diamond, by Pink Floyd
VIII. Resposta
Hoje choveu cá dentro. Temi que fosse trovejar, mas ficaste-te por aí. Sopraste-me, no teu tão próprio acto de ser e permaneceste aí: intocável. Li o teu olhar; sabia que procuravas no meu corpo a resposta à tua indiferença fingida.
Pois, bem... Seca-te à luz até que se expire, nas areias do tempo, o tempo que precisei para deixar de precisar dessa seiva venenosa.
VII. Meninice
(Olha: é imperativo que leias este texto ao som desta música!)
Era para
ser Mafalda, mas nasceu Alice de vários corações e muitas feições. Começou a
caminhar cedo demais e aprendeu a falar sem que lhe pedissem.
Escrever,
foi outra conversa. Começou com um A muito torto, mas lá lhe foi dando o jeito e, como quem não
quer a coisa, na primavera seguinte, já andava a contar histórias inventadas por ela. Fazia castelos
com livros do Winnie the Pooh e muralhas com histórias sobre bruxas e magos, princesas, maçãs e sapos. E chorava porque queria ler mais do que o que as imagens permitiam à sua imaginação e não conseguia. A Mãe sempre lhe dissera que ela deveria ser actriz – chorava quando queria.
Usava
sempre blusas de bolsinhos bordados, saias laranja-abóbora, soquetes com folho rendado e as botas ortopédicas azuis-marinho; um laço nos caracóis e
a pulseirinha de oiro no pulso gorducho. A pulseira que a Avó lhe tinha dado.
Passava horas a brincar com folhas de hortelã-pimenta e bolas de sabão. Tinha uma
teimosia muito natural, uma pacatez quimérica muito floral e um jeito para o
desenho muito próprio.
Era feita de muito.
Era feita de muito.
...
Hoje, há
uma casa em ruinas, de paredes cor-de-rosa. A casa da sua infância. E, pelo
meio dos escombros, está a tábua da mesa da cozinha, toda rabiscada de lápis-de-cera
amarelo, que era a cor que pegava melhor na madeira por envernizar.
VI. Série
She
has enough pent-up sexual energy to power a small Midwestern city.
- Angela about Brennan,
in Bones (2005)