XXX. Tolice

Passavam no café onde os velhos costumavam estar sentados a discutir política e futebol. Ela de galochas amarelas e ele com umas botas de camurça coçadas. Ela às costas dele, calçada abaixo, às gargalhadas; coroa de flores e aura ametista; agarrada ao pescoço dele; barba por fazer havia vários dias e o cachecol azul de lã.
Lá vai a menina girassol, tonta de amor.

XXIX. Proteger

Abro o armário e o teu cheiro ainda reside na madeira de pinho. Os teus poemas, colados ao espelho da porta, ainda me envolvem, como prolongamentos dos teus dedos, selando o espaço que me cerca. Os lençóis sujos ainda jazem no chão. Todas as tuas memórias, esqueletos de ti, me protegem de voltar ao mundo que me foi tirado na tua hora.

XXVIII. Troca


Há dias em que rasgo as asas às borboletas. Há dias em que o fundo do mar me sabe a casa e há dias em que não me reconheço ao espelho. Há dias em que troco de corpo e passo a ter várias Alices no mundo. Nesses dias, sou a Rita dos cabelos negros e a Simone de outros sorrisos. Sou a Margaux de outros tempos, dos fatos de banho com folhos, dos batidos de Coca-Cola e das coroas de flores.
Há dias em que o mundo se enriquece de mins. 

Hoje sou-me...

... ao som de Debussy: Maid With Flaxen Hair,
interpretado pela Slovak Radio Symphony Orchestra.