Ergue-se Dafne


Reza a lenda que ele era belíssimo, possante com o seu arco de prata. Altivo quanto o mar encrespado, conhecedor da sua força.
E por amor se quedou. De marés baixas e submissas aos encantos afogueados da ninfa de Peneu.
E, da flecha do querubim, voou a sua perdição: o Amor em Apolo e o Chumbo em Dafne.
A correria desmedida pela floresta do Olimpo. Um coração que se não deixa amar e a cegueira, provocada por uma paixão de cura e de peste, que o persegue, impondo a possessão carnal à maior pureza já vista por terras de titãs.
E, cada vez mais próximo, alcançando já os fios de oiro suplicantes, Apolo vê-se tão louco quanto apaixonado. E a sua demanda é, então, em vão.
Um corpo adormecido, a pele áspera. Os caracóis doirados transformados em finas joias de verde. Os braços, antes calorosos, onde se perderiam os jovens ardentes, transformam-se em galhos fortes, de cheiro intenso. Os seus pequenos pezinhos confundem-se com o solo escabroso e unem-se a Gaia. São raízes, agora.
Como rei destronado, Apolo cai aos pés da árvore, chorando o seu grande amor. Chorando os seus erros. Abraça-a e soluça por perdão, por Dafne.
Mas Dafne partiu e nada mais resta do que uma coroa de louro sobre a cabeça, que ferirá mais do que uma de espinhos sobre o peito.



Me vira de ponta cabeça
Me faz de gato e sapato
E me deixa de quatro no ato
Me enche de amor

Lança Perfume, by Rita Lee

Luz nova

Os ventos transformaram-se em paredes. E em estranhas marés entranhadas espero o azul fogo. Os meus ossos estão frios. Lá fora, estará a esperança de prata, de pontes e de poetas loiros; de um mundo silencioso.
Escuta-o. Parece absoluto. Está a dormir.
Através das chamas, verei os líquidos da hibernação. Ao longe, toca um trompete. Dó… Ré. Si bemol... Dó. Si...
Electricidade: o teu polegar sobre o meu lábio.
Fragilidade: o chão foge-nos dos pés – estamos sobre cascatas. A emergência inextinguível dos jactos translúcidos de amor.
Nós e asas: à deriva, a flutuar sobre o mar. Cabelos, peitos e quadris.
A Via Láctea: as estrelas sobre nós. O teu orgasmo.
A profetisa púrpura: o Jardim de Éden.
Amanhã ao espelho: o breve momento em que me matas.

Luz nova

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E a gente tem de rir. A gente ri e finge que amanhã não vai chover.
Eu acordo sempre enevoada. E às vezes também chovo. Hoje foi desses dias. E, contempla, o povo ri, já que é ignorante.
Às vezes também brilho nas calhas, o que não deixa de ser interessante.
Mas eu rio quando chovo e isso faz de mim louca.
Os doidos são bons. São; a eles custa-lhes o copo de vidro partido.
As crianças, às vezes, brincam com armas porque não têm bonecas.


«fecha o guarda-chuva e deixa a chuva fustigar-te...», chuck