Shakespeare foi imprudente...


Não passo de ruído. De um motim entre o aço e a pureza humana. Não sou mais do que a coroa de espinhos que Alguém carregou por mim. Obrigada, mas foi inútil.
[Se é que alguma vez o fizeste, de facto.]
Era bondade. Uma bondade sorridente. E, de repente, relampejou em mim uma ânsia de eliminar a infecção. Cortar o mal pela raiz. Derramar o sangue sujo na calçada portuguesa.
Ela, maculada, serpentearia o seu cabelo loiro, pelas raízes da Mãe.
Ele, cadavérico, seria perfeito, feérico. Seria o fim. Seria o fim dos amantes, do beijo. Seria o meu.
Estou num abismo vivo, em águas cavadas, uma prostração esgotante entre incertezas de metamorfose lunar.
Perscruto a tua face e não é minha. E isso cansa-me. Mais do que o que algumas vez possas imaginar.
Amei-te por trezentas vezes. Em formas aleatórias, em forma de A, de forma pura. São estas as artes do amor...
E toda a gente se esqueceu que antes de Juliet, existiu Rosaline. Aí me encontro.

Ladrão de figos secos


Acho que funcionas mais ou menos com uma consistência negra.
Resistes, roubando-me sempre o último figo seco.
Demoras a anoitecer, não deixas que aconteça e cativas-me num crepúsculo dolente, eternizado.
Não flamejas, mas também já perdeste o azul ciano.
És qualquer coisa entre o cinzento e a nulidade cromática.
És como um mau cigarro:
um é muito e dez não são suficientes – o clímax da dor gritante, da lascívia humana.

O mundo visto daqui sabe melhor e soa a caixinha de música.
Daqui, visto-te de azul. És céu e é verão e não há nuvens! Jamais as semearia em ti. Não!
Tens bandos de pássaros que bailam em espiral e chilreiam e tens trinta e três vidas e folhas verdes.
És tão bonito...
É adorável como suportas tantos milénios de «Eu amo-te mais do que isto»
O que mais queres que diga? Tudo em ti é adorável.