Aberdeen, 31 de Outubro de 1984

– O que achas?
Encolhi os ombros e franzi a testa. Apliquei-lhe um pouco mais de tinta branca sobre a pele já de si clara.
Os olhos dele estavam ao nível do meu peito. Sentia a respiração pesada dele sobre a pele arrepiada da minha barriga.
– Não te encostes a mim, senão borratas tudo.
Desviei os cabelos loiros com ar suado que lhe pendiam na testa para tentar contornar bem os seus traços tão belos, tão juvenis, tão cansados.
– Vê-te ao espelho. E agora? – dei-lhe o espelho partido para mão.
– Põe mais disso nos olhos – apontou para o frasquinho com a tinta preta azeviche.
Assenti. E pintei melhor o contorno dos seus olhos, para que parecesse realmente uma caveira.
Entre nós, havia sempre aquela mansidão pós-orgasmo; uma sensação de reconhecimento, sem necessidade de palavras supérfluas, bicudas. Tínhamo-nos um ao outro: destroçados, loucos, em cera, sem Deuses, ao escuro, psicopáticos.
– Acho que já está. Mais alguma queixa?
– Shh…
– E eu?
Acendeu um cigarro. O cheiro a erva logo me seduziu. Deixei-me cair no chão, junto à cama desfeita e roubei-lhe uma passa.
– Foda-se. Que cena.
– O quê?
– És linda. Mas isto… Isto – abrangeu o espaço do quarto com o braço esquerdo e vi-lhe as feridas abertas e algumas cicatrizes rosadas ao longo do braço. – Custa-me aguentar isto tudo – deu uma passa, susteve-a e passou-me o cigarro, exalando uma ténue linha de fumo – Acreditas nos fantasmas?
– Eu sou um fantasma – fumei outra vez e afundei-me um pouco mais, aninhada no édredon bordeaux.
– E amas? – olhou para o tecto de traves, roídas por carpins, aos buraquinhos. Ouvia-se os bichos a comer a madeira. Um trr trr trr constante.
– Tu amas?
– Eu amo-te?
– E eu? Achas que te amo? – rasguei a bainha do édredon e puxei o fio, que parecia não mais acabar.
– Não sei. Mas gosto do sexo.
Assenti.
– Queres foder?
– Agora não, senão o disfarce é destruído. E ficou mesmo bem…
– Quero pintar o teu corpo com ele.
– Tu estás apenas bêbado.
– Que se foda. É isso que é ser-se adolescente.
Apagou o cigarro com a língua, deu um gole na garrafa de cerveja e puxou-me pelos cabelos, de encontro à sua boca. Sabia mal. Mas sabia a ele e essa era a maior dádiva. Cravou os seus dedos nos meus seios e despi-lhe a camisola preta, percorrendo a pele das suas costas, sentindo todos os vergões e cicatrizes.
Amava-o. Virou-me de costas para ele e afundou-se em mim.
E em dez anos, ele estaria morto. Eu também. Importava o agora. Seria uma noite de azares infames e de ossos e de pele; de sangue, saliva, suor, sémen.
Seríamos nós e o cheiro a erva e a libido. Porque é a isso que o espírito adolescente cheira.




O mundo inteiro é um borrão. Deixaste as tintas de lado. Já nem sequer usas o mais fino dos pincéis para delinear as curvas dos meus seios. Vou acomodar-me fora da minha concha; dentro do teu desconhecido e deixar que o arame farpado se delicie na minha pele nua, cevando-se da minha alma e do meu sangue, que nem chega a ser derramado no chão.
Há electricidade no ar, no teu toque, na tua Alice. Não naquela que levaste a passear na noite dos icebergs, dos pingentes de gelo, da neve glacial, das folhas queimadas no chão. Essa, guardaste-a tão bem, às escuras, que nem ela se consegue encontrar. Essa tua menina do cachecol branco já não faz arco-íris, já não se refresca nas gotas de chuva, já não brinca nas quentes chamas de fogo.

Ninguém escreve à Alice


Era Outono e a tristeza
Caía naqueles lados,
Como se dobrassem sinos
Com um toque de finados.

O mundo chamava a Alice
E ela sem vontade de ir
Tão cedo para estar amarga
Mais ainda pra cair.

Talvez uma só palavra,
Talvez uma só missiva
Pudesse mudar a agulha
Dum coração à deriva.

Mas o carteiro passou.
Nada deixou, nada disse.
E o recado não chegou.
Ninguém escreve à Alice.
Ninguém escreve à Alice.

Até que veio o Inverno
Do seu descontentamento
Que lhe enregelou a alma
Com um frio mudo e lento.

E uma noite foi para a rua,
Com roupas de ritual.
Ao longe brilhavam néons,
Foi notícia no jornal.

Talvez uma só palavra,
Talvez um simples recado
Pudesse mudar a agulha
Dum coração desvairado.

Mas o carteiro passou.
Nada deixou nada disse,
E o recado não chegou
Ninguém escreve à Alice.

Ninguém escreve à Alice, by Rui Veloso

Cada palavra... cada palavra traça uma Alice tão triste quanto eu.