Ópio, absinto, mentiras, dissabores.


A essência da descontração está na cinza do cigarro que agora esvoaça sobre a terra batida. Tento olhar para o relógio da estação, sem querer pensar nas horas que faltam para me perder em ti. E faltam tantas.
E, num vaivém de olhares desassossegados e constrangidos, eis que te capto em mim; preso a mim. Outra vez.
Bem, talvez seja esta a primeira. Ambos sabemos que nunca aconteceu, mas gosto de pensar que sim. E é esse o meu maior tesouro! Cativar-te no vácuo da minha existência.
Ópio, absinto, mentiras, dissabores.
Silhuetas hiperbólicas de coisa nenhuma reflectidas nas poças de água lamacenta. Se eu fosse uma criança… Ah, se eu fosse uma criança!, com toda a mestria do mundo; de quem ainda só sabe quanto são dois mais dois; saltaria nas poças, até ter as galochinhas amarelas empapadas, até que a gabardina azul petróleo adquirisse uma nova cor, até que fosse assim para sempre!
Eu pensava que seria assim para sempre! As borboletas chegariam sempre na primavera! E os escaravelhos da batata também! E o meu pior pesadelo seria calcar uma abelha, porque, efectivamente, dói!
Mas já não é assim. Agora existe uma complicação cismada que se embrenha nas sinestesias do paralelo e da quinta dimensão… e de coisa nenhuma. Nem sei o que é a existência.
Está na hora de te encarar. Não quero que me digas o que é isto. Não! Chega! Chega de ser assim e de viver no constante desatino de uma insegurança refugiada em conhecimentos pré adquiridos em livros ridículos de autoajuda. Não és nada dessas coisas! Nem eu. Mas temos de nos agarrar a algo, não é? Mas chega; quero viver tranquila, sem cuidar de que cor serão as minhas lágrimas amanhã. Espera… tu sabe-o. Eu não choro. Não chorava antes de ti. Não te culpes. Não te vanglories.
– Senta-te aqui.
– Não. Nem devias ver-me.
– Estás à minha espera.
– Estou. E ainda tens nove anos.


Quiero hacer contigo lo que la primavera hace con los cerezos

Pablo Neruda

Tout ce qui peut être imaginé est réel.

Pablo Picasso



E Rita adorava romãs


Rita olhava pela varanda de granito da enorme mansão caiada de branco com portadas azuis, para a estrada onde já não passava vivalma havia meses.
De perninhas à chinês, segurava na mão o violino, deixando-o repousar sobre o seu colo e balançava, com a outra mão de menina pequena, o arco de cerdas brancas. Brancas como a pele das suas mãos. Brancas como os poucos salpicos de algodão que tornavam o céu de verão tão hospitaleiro.
Tudo aquilo era idílico: as áleas adornadas por lindas árvores altas e centenárias, os trilhos de roseiras, o olival, o lago ladeado por lentiscos, as romãzeiras que se adivinhava darem fruto nos meses próximos. E Rita adorava romãs.
Sentada na cadeira de ferro forjado, absorvia todos aqueles ares frescos de maresia mediterrânica, de laranjas acabadas de cortar, de sol de verão que aquece sem queimar.
Rita tinha o canto das andorinhas, uma ode radiante àquilo que era a vida. Era livre, na sua ilha, só sua.
Pousou o violino sobre a mesa e mordeu um dos gomos do citrino agridoce. Fechou os olhos. Era como se ela fosse uma espécie de ceifeira, uma espécie de felino, também.
Pousou o arco, despiu o vestido e correu apressada para dentro de casa, como se o tempo viesse atrás dela. E vinha mesmo. Correu. Correu por entre os corredores ornamentados de bustos. Correu; pinturas a óleo e estantes de livros. O piano de cauda. Os arranjos de eufrásias. Correu pelos degraus abaixo, quase tropeçando nos próprios pezinhos inocentes. Correu. Abriu o portão do jardim e do alto das escadas de pedra, mergulhou na sua consciência…
Quebrara-se: era hora de voltar para casa.