"Tu és eu"


Borrou a maquiagem mais uma vez, numa tentativa frustrada de parecer bela aos olhos dele. É claro que nunca se sairia bem, porque neles já moravam os cabelos loiros da rapariguinha italiana de aspecto hipster, cobiçada por todos os rapazes. Cobiçada por ele. A quem se entregara também.
Era fácil amá-lo. Ele, apesar do seu aspecto «Que se danem as pessoas», não passava de uma criança mal-amada, dum jovem doente, duma alma de poeta aprisionada dentro de um corpo que foi moldado por uma sociedade para ser mais uma das peças de uma máquina que sustenta um planeta pútrido e que se vendeu pelo capitalismo sujo de meia-dúzia.
Tal como ela. Não a loirinha, de nariz empinado e sorriso automático. Ela, a rapariguinha ruiva, sardenta, bonita e esquecida, que se perde sempre nos olhares alheios, de que escapa com uma facilidade involuntária.
– Tu és eu, dissera-lhe ele uma vez.
E nunca mais...

Voltou a olhar-se ao espelho, assustada, limpou o que restava do batom vermelho, fitou os olhos verdes sem fim e virou costas à languidez dos seus sessenta quilos cobertos pela pele fina que transparecia o sangue azul que lhe corria nas veias.
– Amanhã vê-se.
Fizeste-nos de correrias; desenfreio de loucas madeixas de luar. E uma por uma, todas as gotas que suaste, te caem agora de um precipício platónico.
Como o horizonte que nos abate e as palavras meras que rabisco, emergiste de um nada que ainda me é tanto... que me é tudo! E, de pálpebras cerradas, fazes-nos delirantes, sequiosos. Oh! Somos agora aves voadoras que aspiram a um novo planeta e a músculos possantes! 
E já não corro mais.
E perdi a sublime esperança,
               de que talvez a lembrança
                       não passe de um sonho que ficou por inventar.
E os ecos estridentes e aflitivos que tilintam no meu peito são a reminiscência de um batimento cardíaco que uma vez te pertenceu e que, sabe Deus, jorrou tremores e bênçãos e criou um porto de mágoas e perdições.
Ainda não te consigo dizer adeus, pois esta demência de paisagens que são pintadas na minha janela mostra ondas ribombantes de possessão extrema, de insânia pura, de chuva que cai, de gritos que dou! Ah!!

Como gostaria que o gira-discos convertesse a minha sina, e a lomografia não te capturasse para te eternizar dentro do álbum de fotografias e por entre os meus pensamentos de inverno…