Chuva de Verão

Como um fenómeno te precipitas, 
Corres pelas ruas ensolaradas. 
E na tua passagem apressada, 
Não reparas nas flores 
Que brotam nas varandas. 
Vê como são leves, 
De todas as cores! 

Com ignorância, 
Vais correndo a par do tempo. 
Choveste na infância. 
Ainda choves, 
Acanhada chuva de Verão. 

Na margem onde viajas, 
Vais-te evaporando. 
E na terra onde entrares 
Voltarás às origens, à sombra. 
Sem que te apercebas, 
Não verás mais as flores. 

É inverno 

E só choves no Verão.

Acácia


A Camilo,

Cercada de invisibilidade,
Abelha, que na acácia procuras amarelas flores, 
Mata o desespero.
Inspira da flora os odores
Livres da sociedade.
Ora e crê que é efémero.

Calma! Que na
Alma de quem ama
Surge a fé.
Talvez não ate, mas segura a vida.
Espera! Não voes já!
Lá, onde o vinho dá vida,
Onde Deus não perdoa a tua dívida,

Beberás a saudade do néctar da flor.
Ri. Ri de loucura e os
“Ai’s!” que bramires
Não serão gritos de amor.
Certo que será mais fácil…
Oscilarás? Terminarás com a dor?

Confortavelmente Amargurada


Trajada de capa branca,
Envolvida numa aura dourada,
Chama-se Bela e
Anda como pairando, 
Anunciando ao Homem a madrugada.

De vidro é o vazio
Que lhe ocupa a penosa alma. 
Um espírito que flagra num
Corpo dormente de belo.
É-lhe singular a petrificante calma.

De entre a confusão,
Bate com subtileza as asas, 
Na esperança de quem procura
Reacender o amor no coração.
E foge do tumulto citadino.

Lá, no meio da floresta mágica,
Lá, onde fora encontrada, 
Rodeada das suas ilusões,
Ígneo é o olhar de quem a descobre
E a chama de musa, de fada... 
De dona de (perdidos) corações.

Recolhendo-se apavorada
Ouve a brisa atroz, 
Com o temor de quem não ama,
Na sua demência a lhe dizer:

– É o poeta, é o poeta,
A permitir o amanhecer.