Mostrar mensagens com a etiqueta Do caderno. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Do caderno. Mostrar todas as mensagens
E a gente tem de rir. A gente ri e finge que amanhã não vai chover.
Eu acordo sempre enevoada. E às vezes também chovo. Hoje foi desses dias. E, contempla, o povo ri, já que é ignorante.
Às vezes também brilho nas calhas, o que não deixa de ser interessante.
Mas eu rio quando chovo e isso faz de mim louca.
Os doidos são bons. São; a eles custa-lhes o copo de vidro partido.
As crianças, às vezes, brincam com armas porque não têm bonecas.


«fecha o guarda-chuva e deixa a chuva fustigar-te...», chuck

Þú ert á lofti, eru refur, eru sjómaður


Alguém me disse, na nossa praia, que não se ama uma pedra.
Não se prende a areia porque o mar a leva.
Vai e volta.
E ribomba outra vez, para levá-la de novo.
Shuááá…
phiii…
Shuááá…
phiii…
E o mar é um bicho difícil de ser amado.
Mesmo quando está sereno e tão imenso quanto o azul assustado dos teus olhos imprudentes. Mesmo nesses dias, ele teima em não aceitar os meus cabelos aclarados. Cospe-me! Despreza-me!
Quero esperar que te afogues para voltar a encontrar o teu olhar de maresia, os teus cabelos de algas, o vendaval que se sentia, mas que cheirava a sal e saúde.
Serás bom para os meus pulmões.
Serás bom para o meu coração. 

He put his mouth close to her neck. Her smooth skin invited thoughts of lust. All the excitement that his hot breath promised left her lips dry, her breathing cut and her nature wet, her intimate parts that, for once or twice... Oh! For so many times, he has claimed as his. He was her King, her Daddy.
Wasn’t that the most sensual of the prophecies?

Shakespeare foi imprudente...


Não passo de ruído. De um motim entre o aço e a pureza humana. Não sou mais do que a coroa de espinhos que Alguém carregou por mim. Obrigada, mas foi inútil.
[Se é que alguma vez o fizeste, de facto.]
Era bondade. Uma bondade sorridente. E, de repente, relampejou em mim uma ânsia de eliminar a infecção. Cortar o mal pela raiz. Derramar o sangue sujo na calçada portuguesa.
Ela, maculada, serpentearia o seu cabelo loiro, pelas raízes da Mãe.
Ele, cadavérico, seria perfeito, feérico. Seria o fim. Seria o fim dos amantes, do beijo. Seria o meu.
Estou num abismo vivo, em águas cavadas, uma prostração esgotante entre incertezas de metamorfose lunar.
Perscruto a tua face e não é minha. E isso cansa-me. Mais do que o que algumas vez possas imaginar.
Amei-te por trezentas vezes. Em formas aleatórias, em forma de A, de forma pura. São estas as artes do amor...
E toda a gente se esqueceu que antes de Juliet, existiu Rosaline. Aí me encontro.

Ladrão de figos secos


Acho que funcionas mais ou menos com uma consistência negra.
Resistes, roubando-me sempre o último figo seco.
Demoras a anoitecer, não deixas que aconteça e cativas-me num crepúsculo dolente, eternizado.
Não flamejas, mas também já perdeste o azul ciano.
És qualquer coisa entre o cinzento e a nulidade cromática.
És como um mau cigarro:
um é muito e dez não são suficientes – o clímax da dor gritante, da lascívia humana.

O mundo visto daqui sabe melhor e soa a caixinha de música.
Daqui, visto-te de azul. És céu e é verão e não há nuvens! Jamais as semearia em ti. Não!
Tens bandos de pássaros que bailam em espiral e chilreiam e tens trinta e três vidas e folhas verdes.
És tão bonito...
É adorável como suportas tantos milénios de «Eu amo-te mais do que isto»
O que mais queres que diga? Tudo em ti é adorável.

Adeus, adeus, aos convencidos da vida, que suja bandeira hastearam anunciando ao mundo toda a morte a ouros e rubis. Adeus às viagens por folhetos dobrados nos cantos, por vapores metropolitanos e cigarros por acabar. Adeus às cigarrilhas também.
E tão belas são as virgens, empurradas por este vendaval, forçadas a abandonar os recintos por portas e janelas onde descansam sombras…
Não as desperte! São feras de cenho arreganhado, Cérberos e Hidras! São o espectro mal-amado de consortes e divas. Guardam cem sonetos de luas e sóis, de terra e de prantos e de chuva e de alegria! Guardam tudo o que lhe escrevi: a lua poeirenta, a madressilva das melodias fugitivas e o esquecimento de um ouro incandescente no coração.

Os pássaros chegaram mais cedo. Será já Primavera?


E aos poucos...


... muito serenamente, vou desprendendo-me de ti. Sanando, sorrindo. Forçando-me ao renascimento.
Já não pertenço ao teu contemplar falacioso e, livre de arritmias e apoplexias, corro livremente, de cabelos soltos, alameda abaixo, perseguindo os pombos, gritando às fachadas seculares ornamentadas pelo sol matinal citadino, a natureza que sou e os rios que jorram em mim num canto jovial e eterno! Ah… como me sinto bem!

PS.: Diz-se que quem prende um aloquete à Ponte D. Luís e deita fora a chave, verá um desejo concretizado. Diz-se…

A Morte tocou-te e, frágil, tombaste nos meus braços. Ainda morna, antecipando o gelo de um corpo inerte, sem essência.
Mas em ti nascerão as mais belas tulipas, serás rodeada por borboletas e nascerás em cada maçã!
Conheces bem o Amor; esse fiz questão que guardasses para sempre... e estás no Céu agora. Estás a tomar conta de mim.
Fechaste os olhinhos na incubadora e foi como se o véu entre esta dimensão e o outro Mundo, de repente, se tornasse transparente. Não soube a qual pertencias, nem a qual me fizeste pertencer. Perdi a força nas pernas e caí no chão. Viste isso? Espero que não. Foi desesperante e mórbido e fez-me parecer uma desistente. E tu tiveste forças, por mim! Deixaste-te ficar comigo para me olhares uma última vez e deixares-me beijar-te uma última vez.
Foi tudo dito. Entendes as minhas palavras? Acho que sim. Acho que, secretamente, sussurraste-me que era o fim. A Mãe não ouviu. Ainda bem. Ela também te ama. Todos te amamos.
O meu peito será sempre o teu colo.
Amor, amor sempre, minha doce Borboleta. Até já!
Aberdeen, 31 de Outubro de 1984

– O que achas?
Encolhi os ombros e franzi a testa. Apliquei-lhe um pouco mais de tinta branca sobre a pele já de si clara.
Os olhos dele estavam ao nível do meu peito. Sentia a respiração pesada dele sobre a pele arrepiada da minha barriga.
– Não te encostes a mim, senão borratas tudo.
Desviei os cabelos loiros com ar suado que lhe pendiam na testa para tentar contornar bem os seus traços tão belos, tão juvenis, tão cansados.
– Vê-te ao espelho. E agora? – dei-lhe o espelho partido para mão.
– Põe mais disso nos olhos – apontou para o frasquinho com a tinta preta azeviche.
Assenti. E pintei melhor o contorno dos seus olhos, para que parecesse realmente uma caveira.
Entre nós, havia sempre aquela mansidão pós-orgasmo; uma sensação de reconhecimento, sem necessidade de palavras supérfluas, bicudas. Tínhamo-nos um ao outro: destroçados, loucos, em cera, sem Deuses, ao escuro, psicopáticos.
– Acho que já está. Mais alguma queixa?
– Shh…
– E eu?
Acendeu um cigarro. O cheiro a erva logo me seduziu. Deixei-me cair no chão, junto à cama desfeita e roubei-lhe uma passa.
– Foda-se. Que cena.
– O quê?
– És linda. Mas isto… Isto – abrangeu o espaço do quarto com o braço esquerdo e vi-lhe as feridas abertas e algumas cicatrizes rosadas ao longo do braço. – Custa-me aguentar isto tudo – deu uma passa, susteve-a e passou-me o cigarro, exalando uma ténue linha de fumo – Acreditas nos fantasmas?
– Eu sou um fantasma – fumei outra vez e afundei-me um pouco mais, aninhada no édredon bordeaux.
– E amas? – olhou para o tecto de traves, roídas por carpins, aos buraquinhos. Ouvia-se os bichos a comer a madeira. Um trr trr trr constante.
– Tu amas?
– Eu amo-te?
– E eu? Achas que te amo? – rasguei a bainha do édredon e puxei o fio, que parecia não mais acabar.
– Não sei. Mas gosto do sexo.
Assenti.
– Queres foder?
– Agora não, senão o disfarce é destruído. E ficou mesmo bem…
– Quero pintar o teu corpo com ele.
– Tu estás apenas bêbado.
– Que se foda. É isso que é ser-se adolescente.
Apagou o cigarro com a língua, deu um gole na garrafa de cerveja e puxou-me pelos cabelos, de encontro à sua boca. Sabia mal. Mas sabia a ele e essa era a maior dádiva. Cravou os seus dedos nos meus seios e despi-lhe a camisola preta, percorrendo a pele das suas costas, sentindo todos os vergões e cicatrizes.
Amava-o. Virou-me de costas para ele e afundou-se em mim.
E em dez anos, ele estaria morto. Eu também. Importava o agora. Seria uma noite de azares infames e de ossos e de pele; de sangue, saliva, suor, sémen.
Seríamos nós e o cheiro a erva e a libido. Porque é a isso que o espírito adolescente cheira.




O mundo inteiro é um borrão. Deixaste as tintas de lado. Já nem sequer usas o mais fino dos pincéis para delinear as curvas dos meus seios. Vou acomodar-me fora da minha concha; dentro do teu desconhecido e deixar que o arame farpado se delicie na minha pele nua, cevando-se da minha alma e do meu sangue, que nem chega a ser derramado no chão.
Há electricidade no ar, no teu toque, na tua Alice. Não naquela que levaste a passear na noite dos icebergs, dos pingentes de gelo, da neve glacial, das folhas queimadas no chão. Essa, guardaste-a tão bem, às escuras, que nem ela se consegue encontrar. Essa tua menina do cachecol branco já não faz arco-íris, já não se refresca nas gotas de chuva, já não brinca nas quentes chamas de fogo.

Teoria do Caos | Efeito Borboleta


Se o afortunado latejo das asas delicadas de uma singela borboleta pode causar tanta dor e devastação no lado oposto do mundo, desejava saber quem é que colheu a mais harmoniosa das flores, para que me encantasse por ti.

Ópio, absinto, mentiras, dissabores.


A essência da descontração está na cinza do cigarro que agora esvoaça sobre a terra batida. Tento olhar para o relógio da estação, sem querer pensar nas horas que faltam para me perder em ti. E faltam tantas.
E, num vaivém de olhares desassossegados e constrangidos, eis que te capto em mim; preso a mim. Outra vez.
Bem, talvez seja esta a primeira. Ambos sabemos que nunca aconteceu, mas gosto de pensar que sim. E é esse o meu maior tesouro! Cativar-te no vácuo da minha existência.
Ópio, absinto, mentiras, dissabores.
Silhuetas hiperbólicas de coisa nenhuma reflectidas nas poças de água lamacenta. Se eu fosse uma criança… Ah, se eu fosse uma criança!, com toda a mestria do mundo; de quem ainda só sabe quanto são dois mais dois; saltaria nas poças, até ter as galochinhas amarelas empapadas, até que a gabardina azul petróleo adquirisse uma nova cor, até que fosse assim para sempre!
Eu pensava que seria assim para sempre! As borboletas chegariam sempre na primavera! E os escaravelhos da batata também! E o meu pior pesadelo seria calcar uma abelha, porque, efectivamente, dói!
Mas já não é assim. Agora existe uma complicação cismada que se embrenha nas sinestesias do paralelo e da quinta dimensão… e de coisa nenhuma. Nem sei o que é a existência.
Está na hora de te encarar. Não quero que me digas o que é isto. Não! Chega! Chega de ser assim e de viver no constante desatino de uma insegurança refugiada em conhecimentos pré adquiridos em livros ridículos de autoajuda. Não és nada dessas coisas! Nem eu. Mas temos de nos agarrar a algo, não é? Mas chega; quero viver tranquila, sem cuidar de que cor serão as minhas lágrimas amanhã. Espera… tu sabe-o. Eu não choro. Não chorava antes de ti. Não te culpes. Não te vanglories.
– Senta-te aqui.
– Não. Nem devias ver-me.
– Estás à minha espera.
– Estou. E ainda tens nove anos.

E Rita adorava romãs


Rita olhava pela varanda de granito da enorme mansão caiada de branco com portadas azuis, para a estrada onde já não passava vivalma havia meses.
De perninhas à chinês, segurava na mão o violino, deixando-o repousar sobre o seu colo e balançava, com a outra mão de menina pequena, o arco de cerdas brancas. Brancas como a pele das suas mãos. Brancas como os poucos salpicos de algodão que tornavam o céu de verão tão hospitaleiro.
Tudo aquilo era idílico: as áleas adornadas por lindas árvores altas e centenárias, os trilhos de roseiras, o olival, o lago ladeado por lentiscos, as romãzeiras que se adivinhava darem fruto nos meses próximos. E Rita adorava romãs.
Sentada na cadeira de ferro forjado, absorvia todos aqueles ares frescos de maresia mediterrânica, de laranjas acabadas de cortar, de sol de verão que aquece sem queimar.
Rita tinha o canto das andorinhas, uma ode radiante àquilo que era a vida. Era livre, na sua ilha, só sua.
Pousou o violino sobre a mesa e mordeu um dos gomos do citrino agridoce. Fechou os olhos. Era como se ela fosse uma espécie de ceifeira, uma espécie de felino, também.
Pousou o arco, despiu o vestido e correu apressada para dentro de casa, como se o tempo viesse atrás dela. E vinha mesmo. Correu. Correu por entre os corredores ornamentados de bustos. Correu; pinturas a óleo e estantes de livros. O piano de cauda. Os arranjos de eufrásias. Correu pelos degraus abaixo, quase tropeçando nos próprios pezinhos inocentes. Correu. Abriu o portão do jardim e do alto das escadas de pedra, mergulhou na sua consciência…
Quebrara-se: era hora de voltar para casa.
O sangue sabia a vinho e, mais do que nunca, atrevi-me a galáxias de embriaguez e paradoxos de timbres que nunca havia testemunhado.
Talvez fosse o cetim uma parte de mim; aquela parte que sonhava com cascatas de doces néctares, quentes e tropicais, sonhava com céus sem nuvens, com luares pausados onde toda a radiância não era mais do que uma espécie de caixinha mágica onde cabia todo o meu passado. Melhor do que isso: caberia todo o meu futuro.
Não sei se sinto, se já ardi, se carpi tudo o que devia; se envenenei o olhar dele, se explorei o sal da sua pele. Não sei se os vapores dele ainda me provocam o êxtase de sempre.
O céu queima, o papagaio caiu, a minha consciência arruinou-me. Descanso agora sobre peitos queimados, respirações cessadas, alimentada por anjos que dormem, secando em rochas quentes.
Suspirei tudo. Vi tudo. Sou marinheiro. Sou raposa. Acendi o fogo, queimei o iceberg, inalei a cocaína e o enxofre.

Estamos cobertos de gelo. Somos túmulos atrás de nós.

Minha Partícula de Sonho


Nas teclas alvas do piano jazem algumas lágrimas. São púrpura, são carmin, são pecado, morte e cegueira.
Mordi o fruto proibido, sorvi todos os méis da sua essência. E como doces gotas de inverno, as nublosas afluíram dos meus lábios, por entre os meus dedos, até à chave da nossa melodia.
Aquele desejo que nasceu do nada, de uma partícula perdida de sonho, não foi mais do que uma epifania. Perdeu-se dentro do teu túmulo e não deixou que a minha boca sôfrega sorvesse o teu acre paladar a pomo silvestre.

"Tu és eu"


Borrou a maquiagem mais uma vez, numa tentativa frustrada de parecer bela aos olhos dele. É claro que nunca se sairia bem, porque neles já moravam os cabelos loiros da rapariguinha italiana de aspecto hipster, cobiçada por todos os rapazes. Cobiçada por ele. A quem se entregara também.
Era fácil amá-lo. Ele, apesar do seu aspecto «Que se danem as pessoas», não passava de uma criança mal-amada, dum jovem doente, duma alma de poeta aprisionada dentro de um corpo que foi moldado por uma sociedade para ser mais uma das peças de uma máquina que sustenta um planeta pútrido e que se vendeu pelo capitalismo sujo de meia-dúzia.
Tal como ela. Não a loirinha, de nariz empinado e sorriso automático. Ela, a rapariguinha ruiva, sardenta, bonita e esquecida, que se perde sempre nos olhares alheios, de que escapa com uma facilidade involuntária.
– Tu és eu, dissera-lhe ele uma vez.
E nunca mais...

Voltou a olhar-se ao espelho, assustada, limpou o que restava do batom vermelho, fitou os olhos verdes sem fim e virou costas à languidez dos seus sessenta quilos cobertos pela pele fina que transparecia o sangue azul que lhe corria nas veias.
– Amanhã vê-se.
Fizeste-nos de correrias; desenfreio de loucas madeixas de luar. E uma por uma, todas as gotas que suaste, te caem agora de um precipício platónico.
Como o horizonte que nos abate e as palavras meras que rabisco, emergiste de um nada que ainda me é tanto... que me é tudo! E, de pálpebras cerradas, fazes-nos delirantes, sequiosos. Oh! Somos agora aves voadoras que aspiram a um novo planeta e a músculos possantes! 
E já não corro mais.
E perdi a sublime esperança,
               de que talvez a lembrança
                       não passe de um sonho que ficou por inventar.
E os ecos estridentes e aflitivos que tilintam no meu peito são a reminiscência de um batimento cardíaco que uma vez te pertenceu e que, sabe Deus, jorrou tremores e bênçãos e criou um porto de mágoas e perdições.
Ainda não te consigo dizer adeus, pois esta demência de paisagens que são pintadas na minha janela mostra ondas ribombantes de possessão extrema, de insânia pura, de chuva que cai, de gritos que dou! Ah!!

Como gostaria que o gira-discos convertesse a minha sina, e a lomografia não te capturasse para te eternizar dentro do álbum de fotografias e por entre os meus pensamentos de inverno…


Ao Meu Doce e Ferido Luar


Asfixio-me na tua espuma e numa nebulosa de sal e em cristais me deito.
Perco a noção dos sentidos e, ridícula criança!, sussurro mundos de mel.
Com as pálpebras fechadas, vou percorrendo cada grão de infinito teu. Ainda há pouco me chamaste, de olhos negros e marejados de pérolas de sangue, e banhaste-me de mãos incógnitas com sabor a um sol áspero e seco e a teus lábios que são meus. E já não o são.
A tua ira acaricia o meu corpo desnudo na areia e, entre rasgões escarlates, prende-me (não sei se o corpo, se a alma) com espinhos de rosas.

Esta melodia que somos e me suga para o cenário idílico que construí na mente psicótica que tenho, não passa de uma trip de heroína. É tudo tão intocável e tudo dói. Tudo passa. Já é doença, já é dança, e não orvalho.

Caminho pela floresta, em trilhos demarcados pela passagem das chamas. Traçaste um desses, mesmo nas minhas pernas. Ainda me custa olhar para eles e recordar que neles já correste, também.
A floresta aonde brilhas, meu doce e ferido Luar. Aonde os teus olhos ainda se refletem nas agulhas dos pinheiros e as tuas mãos bailarinas ainda dançam ao sabor da tempestade e dos anéis de fumo que fazes com o cigarro.

Queria eu ser um desses anéis.

Numa quietude desconcertante, aproximou-se do banco verde de madeira, bamboleando a carteira de couro na mão direita. Trazia vestida a saia azul, decorada com pequenas margaridas brancas, e a sweather cinzenta. Apesar do calor outonal, sentia-se bem.
Nos seus olhos brilhava a ânsia por um cigarro e o arrependimento de uma noite de sangue sem sono.
Os seus lábios, pintados de vermelho vivo, convidavam a um beijo libidinoso de travo amargo a tabaco. E, no esplendor da sua juventude, esses mesmos lábios, ainda infantis, cheios, e a boca semiaberta (de alheamento) não passavam despercebidos pelos doutores prometidos que por ela passavam.
"Aqueles mocinhos já estão na unibersidade", disse uma velha vestida de azul-turquesa, em tom de cochicho, com uma deliciosa pronúncia do Norte, para o marido, também ele sentado no banco.
Alice desviou o olhar para o casal idoso. Aquele acento que, tanto lhe era alheio, como familiar, sempre a fascinava… Olhou para os rapazes…
Oh! Esses jovens! Quantas vezes se irão eles perder em Alices, em beijos rubros de tabaco e aguardente, no espírito boémio da capa preta...
E tal como o eco do comboio que se aproximava no túnel, também o esvoaçar das pombas, a azáfama de saltos agulha, das capas pretas contra o vento e da velhotinha, que numa doce brincadeira sorria para o marido, ajeitando-lhe a sobrecasaca de bombazine castanha, desapareciam por entre o cabelo esvoaçante de Alice.
Respirava melhor com a boca assim, entreaberta, e o ar frio da estação férrea feria-lhe a garganta seca de quem já não fala há horas. Óptimo! Antes a matasse e acabasse com tudo.
Pensava na melhor forma de terminar com a dor… e essa seria atirar-se para o fosso que, alguns metros à sua frente, abria o chão em linhas geladas de ferro agora molhado pelas chuvas matinais.
Olhou as linhas amarelas… Significavam perigo. Para Alice... seriam a salvação.

Levantou-se pesadamente, arrastando as Docs pelo chão...
Com a respiração suspensa, pensou neles...
O mundo era um vampiro...

Dirigiu-se ao cinzeiro mais próximo e deitou fora a chiclete de canela. «O problema é se nos atiramos para a morte e acabamos como vegetais numa cadeira de rodas», ouviu a voz dele na sua mente.

E entrou no comboio da linha oposta, seguindo os velhinhos.

Eu só queria o mesmo que eles.