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XXX. Tolice

Passavam no café onde os velhos costumavam estar sentados a discutir política e futebol. Ela de galochas amarelas e ele com umas botas de camurça coçadas. Ela às costas dele, calçada abaixo, às gargalhadas; coroa de flores e aura ametista; agarrada ao pescoço dele; barba por fazer havia vários dias e o cachecol azul de lã.
Lá vai a menina girassol, tonta de amor.

XXIX. Proteger

Abro o armário e o teu cheiro ainda reside na madeira de pinho. Os teus poemas, colados ao espelho da porta, ainda me envolvem, como prolongamentos dos teus dedos, selando o espaço que me cerca. Os lençóis sujos ainda jazem no chão. Todas as tuas memórias, esqueletos de ti, me protegem de voltar ao mundo que me foi tirado na tua hora.

XXVIII. Troca


Há dias em que rasgo as asas às borboletas. Há dias em que o fundo do mar me sabe a casa e há dias em que não me reconheço ao espelho. Há dias em que troco de corpo e passo a ter várias Alices no mundo. Nesses dias, sou a Rita dos cabelos negros e a Simone de outros sorrisos. Sou a Margaux de outros tempos, dos fatos de banho com folhos, dos batidos de Coca-Cola e das coroas de flores.
Há dias em que o mundo se enriquece de mins. 

XXVII. Madrugada








Queiram nunca adormecer e viver, eternamente, em busca de ilhas maiores e de espíritos superiores. Viver a madrugada, dançar com Hemingway, em Paris; daiquiri na mão e um sopro de quem quer tudo. Este mundo é rápido, mas a madrugada é vossa.

XXVI. Surpresa



Resvalava na enfermidade dos dias, todos as manhãs, perdida entre cappuccinos nas ruas estreitas, de óculos negros. Já não era, para ela, uma surpresa ver a necessidade com que o rapaz de camisa vermelha axadrezada fumava, pela manhã, à porta do liceu. Habituara-se a ele e aos olhares cúmplices que lançavam, como se se lessem sem querer. Gostavam-se assim, longe e em silêncio. Como duas lagoas siamesas. 

XXV. Caricaturar

Tenho pensamentos que,
se pudesse revelá-los e fazê-los viver,
acrescentariam nova luminosidade às estrelas,
nova beleza ao mundo
e maior amor ao coração dos homens.


O Eu profundo e os outros Eu, by Fernando Pessoa

XXIV. Sal







O sal murcha as flores, queima as plantas. O sal adoece a terra e tu tem-no no teu beijo.

XXIII. Arte






D’arte percebes o que respiras do mundo e dás-me do mundo o que expiras de ti. Dar-te assim, sem pedir de mim, é o tesouro de nós.

XXII. Hábito

Hábito é... É acordar-te como quem faz uma flor desabrochar e saber de ti, como quem se vê ao espelho. Hábito é sussurrar-te mundos e fundos e conservar-te guardado entre véus e alvoradas e entre chuvas de nadas, como se o tudo fosse certo e o amanhã nascesse em ti, nos teus jardins e na ponta da tua caneta. Como se o mundo fosse sem que o quisesse, sem que se apercebesse disso e todas as coisas acontecessem sem que lhes fosse permitido, senão por ti, que te habituaste a ser todas as estações.

XXI. Suspirar

Apanhou o cabelo, descontraidamente, ciente de que, não tardaria, iria soltar-se. As pontas onduladas que lhe pendiam sobre a testa colavam-se à face húmida.
Sentou-se na beira da cama e suspirou. Talvez por ter voltado a dar-se ao pecado de cair novamente no precipício que era a luxúria dele.
Estava nua e sentia o seu hálito a gin sobre a sua pele; tinha os dedos fantasmagóricos, ainda lodosos, da queda. Ainda sentia o seu arfar no pescoço arrepiado e a força com que a imobilizava, como um ser possuído, doente. Sentia a forma como lhe tocava, docemente e, contra o relógio, deambulava sobre o seu corpo, conhecendo as montanhas e os vales da sua pele.
Fechou os olhos e viu-o, para além das cortinas, a suspirar também, como um sol de Março, quente, promissor, a pedir perdão e a renascer, como uma fénix.
Abriu os olhos e voltou-se. Lá estava ele, sobre as ondas daquele amor louco e impaciente, do outro lado da cama. De olhos fechados, a tremer. Ele era o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim; um vulcão e uma nuvem; fúria e paz. Ele fazia o tempo e parava-o dentro dela, a seu belo capricho.
Mas, no fundo, eram só aves alienadas… entre suspiros e conversas de café. Eram só um sonho dela.

XX. Promessa

Aprendi, com a queda das folhas, que fugir por corredores vorticosos era perigoso para quem, como eu, se perdia por pensamentos leves e alados.
Era doloroso para quem, como eu, de pés pequenos, acreditava em promessas felizes, vãs e bondosas. Até ter deixado de apostar nas noites de azar que me consumiam a mente e as folhas amareladas, com marcas de chá. As promessas são sombras incumpridas e ridículas de um passado que nunca virará a página para ler a última alvorada.

XIX. Pé









Pés mordazes, língua de fogo e as mãos de quem desfaz em migalhas o pão e o amor. E, mesmo assim, não consigo matar uma abelha. 

XVIII. Apalavrar






Como um copo que se enche de água fresca, preciso de apalavrar para contar o movimento do sol.

XVII. Belas-artes

Para mim, é isto:

Almond Blossom, by Vincent van Gogh

Danae, by Gustav Klimt

Le Désespéré, by Gustave Courbet

XVI. Contemplar



Sinto falta de contemplar o oceano ao anoitecer e do cheiro que o som do Atlântico salpica ao ribombar durante a noite, nas rochas lodosas do paredão, na Praia dos Pescadores.
Consome-me a falta de algo doce que me preencha o paladar de sensações e me encha a barriga de satisfação. 
Bah... sinto-me insaciável. 

XV. Três








Trezentos e trinta e três poderia ser
o seu número de mentiras perfeitas
contadas a almas ingénuas como a dela. 

XIV. Joaninha










Ladybugs all dressed in red
Strolling through the flowerbed.
If I were tiny just like you
I'd creep among the flowers too!

XIII. Traço





Uma das palavras mais belas que guardo no caderno preto: traço.
Das mais florais, ainda que cheias de traços hidropónicos. Das mais musicais, ainda que dissonantes e cheias de contratempos.
Envolvo as letras cuidadosamente para não te ferir a pele, como se o teu corpo fosse um mapa para a terra onde o amor não apodrece e o céu não amanhece. Um mapa ancestral cheio de marcas de estrelas que me guiam pelos caminhos letárgicos pós-orgasmo.
Nos traços do teu corpo, entranço o meu, atraída para o núcleo da rosa que manténs dentro de ti, em contagem decrescente para o final do sonho e início da vida abstracta. A verdadeira vida. No meu caderno preto, perdido entre traços convexos.

XII. Sortido





A minha infância nestas latas (que, muitas vezes, não passavam de latas de costura).

XI. Construir

É necessário construir lares para tantos corações sem abrigo. Tantas moradas desabitadas a precisar duma porta que feche sem deixar entrar o frio da rua, duma janela que seja limpa para que a sua paisagem deixe de ser fuligem negra.
É mesmo isso que eu quero. Um lar que exista para além das minhas palavras.